Queria saber de você,
meu, nosso Cristo Redentor, quanto tempo mais ficará de braços
abertos diante daquilo que os nossos olhos ardem ao ver; já não agüentam
mais. Estamos todos andando pra trás no progresso, ou será que o
progresso é andar pra trás? Esse andar pra trás a que me refiro
é um andar físico mesmo. Andamos sempre na direção das nossas
casas, nos refugiando de baixo dos nossos cobertores — alguns não
tem nem a sorte de tê-los e se refugiam dentro de marquises ou
caixas de papelão, pedindo dinheiro para a cola de sapateiro que os
mantêm de pé. Estamos de volta ao Estado de Natureza do
homem-lobo-do-homem. Já não agüentamos mais, meu Cristo de São
Sebastião do Rio, que já não é de Janeiro, mas de sangue.
Polícia? Não
sabemos mais nem quem são e o que fazem. Não quero entrar num papo
piegas de que deveríamos esperar mais de seu trabalho pela
cidadania; já não acredito mais em cidadania. Veja, Cristo, no que
nos transformamos! Que animais sujos, que matam uns aos outros, sem
meios porquês, nos tornamos! E você continua aí de cima do monte,
imponente como sempre, mas no teu olho já não vejo esperança; está
cansado também.
Mas se for assim
agora, então como será daqui pra frente? Como vou realizar meu único
sonho dos meus débeis 20 anos? O sonho de ter um filho que se pareça
comigo no que for de bom e que seja melhor que eu no que tenho de
pior. Pra que terei este filho? E como? Não posso ser tão cruel a
ponto de botar mais um enclausurado nessa selva. E eu continuo
perguntando, por quê?
Eu sei que de nada
vale esse texto idiota. Sei que não tem valor um texto só de
perguntas que não podem ser respondidas. Isto porque, eu sei que
sou besta de ficar esperando que você dessa da sua condição de
pedra para nos dar uma resposta. Ou pelo menos que feche os braços
que sempre estiveram abertos e cruze-os, como nós cruzamos, em
protesto por essa vida absurda que entope as nossas artérias. Mas
sei que não, que nada disso vai acontecer e você vai continuar a
ver tudo daí de cima, cada vez mais triste e, no máximo, cada vez
mais curvado de cansaço. Será que você também se rendeu? Às
vezes tenho loucos pensamentos que me fazem querer morrer logo,
antes que fique tudo ainda pior. Talvez porque eu não tenha coragem
e nem estômago para ver algo pior.
Por último Cristo
Redentor, queria poder saber uma coisa que já sei que você vai
silenciar. Me diz quantos pais de amigos meus eu ainda vou ter que
ver morrer? E quantos amigos meus eu vou ter que encontrar depois
que seu pai morreu de uma morte terrível, sem poder falar nada,
porque qualquer coisa que eu falasse seria pouco? Porra, Cristo! Eu
já não tenho mais ninguém que possa me responder isso, só me
resta você! Vi ontem esse meu amigo e foi foda; não sabia o que
falar e não falei nada. Ele sim, falou pra burro, como que se
falasse com o seu velho que lhe foi tirado na marra. Dizia que não
ia se perder, que ia se manter na linha como queria seu pai. E o
mais incrível era que ele falava comigo, mas não me olhava nos
olhos. Não por rudeza, mas sim porque, na verdade, ele não falava
comigo; falava com seu pai. E eu olhava e tentava pensar. Chorei
disfarçadamente. Chorei de ódio e de raiva, mas eu não sabia de
quem. Vi bravura no olhar desse meu amigo. Vi que ele ia fazer o que
seu velho sempre pedira. Ele não ia se perder. Mas quem tinha se
perdido naquela hora era eu.
Autor: Leonardo
Marona - amigo do Bruno, filho do Tim Lopes; em complementação
ao artigo de Viviane
Reis