Tim Lopes

Um repórter que se chamava Arcanjo

—Que todos continuem rezando pelo Tim, porque ele continua vivo dentro de nós. Ele está me dando essa força, essa serenidade. O momento não é de revolta. O Tim, até então, estava aqui nos ajudando, mas Deus está agora precisando dele ao seu lado para ajudar o mundo todo. Que todos continuem nesta corrente de positividade porque, onde ele estiver, ele estará recebendo o nosso carinho e essa luz. Que este sacrifício não tenha sido em vão.    Alessandra Wagner

— À pergunta ‘Onde está Tim Lopes?’, eu gostaria de responder a meu filho: seu pai está no olhar do menino de rua, seu pai está em cada favela, no olhar dos desesperados, na face dos desesperançados, em cada lágrima de cada um de nós. Seu pai tinha três motivos de orgulho: o jornalismo, ser pobre e negro. Toma a caneta e continua a luta dele. É a luta de todos nós. Não quero que ele fique com a imagem de uma pessoa sacrificada. Que a morte dele sirva como exemplo de uma pessoa que lutou por mudanças. Ele teve a coragem de viver junto com os operários e comer a comida ruim. Meu filho completa 20 anos no dia 12, Dia dos Namorados. Na data que celebra o amor, ele vai celebrar o luto. Que o sacrifício do Tim sirva para trazer mudanças.  Sandra Quintella

— É mais um crime hediondo. O assassinato do jornalista Tim Lopes tem, além do mais, uma conotação específica, porque se tratava de um repórter investigativo. É uma tentativa de silenciar a imprensa na questão da droga. Nós estamos passando de todos os limites. É o momento de nos darmos as mãos, tanto os governo federal, estadual e municipal quanto a sociedade, e colocarmos um ponto final nessa série de barbaridades que estão ocorrendo. O assassinato desse jornalista indigna a todos os brasileiros . Fernando Henrique Cardoso.

Aos 51 anos, Tim Lopes já estava com mais de trinta anos de profissão. Mas parecia um foca (apelido dado aos jornalistas iniciantes) quando começava a falar sobre qualquer reportagem que estivesse fazendo. E não somente as investigativas, que o fizeram famoso e respeitado, mas também os dramas humanos e as histórias de uma cidade que ele vivia intensamente.

— Mesmo com todo o perigo, com todo o risco, ele nunca perdia a vontade de fazer as reportagens. Parecia sempre uma criança, contando sobre as matérias que investigava. Não conheci ninguém mais impetuoso que ele — disse o jornalista e escritor Alexandre Medeiros, amigo de Tim e que foi chefe de reportagem dele em dois jornais no Rio.

Mangueirense doente e vascaíno fanático, Tim Lopes trabalhou no GLOBO, na revista “Placar”, no “Jornal do Brasil”, em “O Dia” e no extinto jornal “O Repórter”. Seu primeiro trabalho foi na revista “Domingo Ilustrada”, de propriedade do jornalista Samuel Wainer. Mas não como repórter: Tim era contínuo. Ele começou a fazer reportagens na rua, mas Wainer não considerava seu nome de batismo bom para assiná-las. Assim, Arcanjo Antonino Lopes do Nascimento (que já no nome era um anjo de ordem superior) passou a ser chamado de Tim. O dono do jornal achava o ex-contínuo parecido com o músico Tim Maia.


Até de Papai Noel Tim se disfarçou para escrever

Gaúcho de nascença e carioca desde os 8 anos, quando veio com a família morar na Mangueira, o jornalista encarnou mil e um personagens para fazer reportagens investigativas. Se disfarçou de operário para denunciar as péssimas condições de um canteiro de obras do metrô, no Rio. Vestiu-se como um mendigo e passou dois dias dormindo com meninos que cheiravam cola. Também colocou o uniforme de Policial Rodoviário Federal para apurar um esquema de propinas. Anos depois, para fazer seu último trabalho, mostrado no “Fantástico”, Tim se disfarçou de dependente químico e se internou, durante dois meses, em clínicas de recuperação de drogados.

Na sua primeira reportagem para o “Fantástico”, Tim se vestiu de Papai Noel. Em outra ocasião, ele estava disfarçado de vendedor de água na Central do Brasil para fazer uma reportagem sobre gangues de rua quando filmou, com sua microcâmera, a morte do chefe de um bando. O bandido tinha tentado assaltar um casal com um facão, quando foi perseguido por um motorista de táxi que disparava sua arma. O ladrão foi morto atropelado por um ônibus na Avenida Presidente Vargas. O que poderia ser mais uma morte chocou o já veterano jornalista.

— Lembro-me que ele ficou muito abalado com a morte deste menino. Ele não perdeu a capacidade de achar que este tipo de coisa se tornou normal. Tim ainda tinha o olhar das pessoas comuns — contou a jornalista Cláudia Belém, que era comadre de Tim .

Tim trabalhava há seis anos na TV Globo e dizia se espelhar no repórter Octávio Ribeiro, o Pena Branca, que morreu em 1986, aos 54 anos. Tim o considerava um mestre.

No momento, Tim escrevia, em parceria com Alexandre Medeiros, o livro “Eu sou o samba”, baseado numa série de entrevistas com sambistas cariocas consagrados. Os dois eram vizinhos em Copacabana. Tim Lopes era casado pela segunda vez com Alessandra Wagner. Ele tinha um filho de 19 anos do primeiro casamento, Bruno. E considerava Diogo, filho do primeiro casamento de Alessandra, como se também fosse seu.

Cansado, ele planejava fazer reportagens mais leves

Assim que entrou de férias, após ganhar seu primeiro prêmio Esso com a reportagem “Feirão do Pó”, da Globo — o primeiro prêmio Esso concedido na categoria TV — em que denunciava a venda de drogas em vários pontos do Rio, Tim Lopes tinha uma preocupação: descansar em algum lugar distante da agitação e da violência do Rio. Procurou amigos e pediu indicação de pousadas no interior.

—- Quanto mais no meio do mato, melhor -- disse ele.

Com os amigos, ele já mostrava cansaço. Chegou a comentar que estava “enxugando gelo”, porque o tráfico vinha tomando proporções alarmantes na cidade, apesar das denúncias que a imprensa, inclusive ele, vinha fazendo. Lamentava a falta de ação das autoridades e reclamava a ausência de medidas sociais e de programas educacionais que ajudassem a solucionar o problema das drogas. Demonstrava uma preocupação muito grande com o envolvimento das crianças no tráfico. Mas em nenhum momento mencionou medo dos traficantes por causa do seu trabalho, embora tenha revelado a intenção de preparar reportagens mais leves, sobre meio ambiente. Não conseguiu.
Dimmi Amora
Fonte: Jornal O Globo