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Tim Lopes
Um repórter que se chamava Arcanjo
Aos 51 anos, Tim Lopes já estava com
mais de trinta anos de profissão. Mas parecia um foca (apelido dado aos
jornalistas iniciantes) quando começava a falar sobre qualquer
reportagem que estivesse fazendo. E não somente as investigativas, que
o fizeram famoso e respeitado, mas também os dramas humanos e as histórias
de uma
cidade que ele vivia intensamente.
— Mesmo com todo o perigo, com todo o risco, ele nunca perdia a
vontade de fazer as reportagens. Parecia sempre uma criança, contando
sobre as matérias que investigava. Não conheci ninguém mais impetuoso
que ele — disse o jornalista e escritor Alexandre Medeiros, amigo de
Tim e que foi chefe de reportagem dele em dois jornais no Rio.
Mangueirense doente e vascaíno fanático, Tim Lopes trabalhou no GLOBO,
na revista “Placar”, no “Jornal do Brasil”, em “O Dia” e no
extinto jornal “O Repórter”. Seu primeiro trabalho foi na revista
“Domingo Ilustrada”, de propriedade do jornalista Samuel Wainer. Mas
não como repórter: Tim era contínuo. Ele começou a fazer reportagens
na rua, mas Wainer não considerava seu nome de batismo bom para assiná-las.
Assim, Arcanjo Antonino Lopes do Nascimento (que já no nome era um anjo
de ordem superior) passou a ser chamado de Tim. O dono do jornal achava
o ex-contínuo parecido com o músico Tim Maia.
Até de Papai Noel Tim se disfarçou para escrever
Gaúcho de nascença e carioca desde os 8 anos, quando veio com a família
morar na Mangueira, o jornalista encarnou mil e um personagens para
fazer reportagens investigativas. Se disfarçou de operário para
denunciar as péssimas condições de um canteiro de obras do metrô, no
Rio. Vestiu-se como um mendigo e passou dois dias dormindo com meninos
que cheiravam cola. Também colocou o uniforme de Policial Rodoviário
Federal para apurar um esquema de propinas. Anos depois, para fazer seu
último trabalho, mostrado no “Fantástico”, Tim se disfarçou de
dependente químico e se internou, durante dois meses, em clínicas de
recuperação de drogados.
Na sua primeira reportagem para o “Fantástico”, Tim se vestiu de
Papai Noel. Em outra ocasião, ele estava disfarçado de vendedor de água
na Central do Brasil para fazer uma reportagem sobre gangues de rua
quando filmou, com sua microcâmera, a morte do chefe de um bando. O
bandido tinha tentado assaltar um casal com um facão, quando foi
perseguido por um motorista de táxi que disparava sua arma. O ladrão
foi morto atropelado por um ônibus na Avenida Presidente Vargas. O que
poderia ser mais uma morte chocou o já veterano jornalista.
— Lembro-me que ele ficou muito abalado com a morte deste menino. Ele
não perdeu a capacidade de achar que este tipo de coisa se tornou
normal. Tim ainda tinha o olhar das pessoas comuns — contou a
jornalista Cláudia Belém, que era comadre de Tim .
Tim trabalhava há seis anos na TV Globo e dizia se espelhar no repórter
Octávio Ribeiro, o Pena Branca, que morreu em 1986, aos 54 anos. Tim o
considerava um mestre.
No momento, Tim escrevia, em parceria com Alexandre Medeiros, o livro
“Eu sou o samba”, baseado numa série de entrevistas com sambistas
cariocas consagrados. Os dois eram vizinhos em Copacabana. Tim Lopes era
casado pela segunda vez com Alessandra Wagner. Ele tinha um filho de 19
anos do primeiro casamento, Bruno. E considerava Diogo, filho do
primeiro casamento de Alessandra, como se também fosse seu.
Cansado, ele planejava fazer reportagens mais leves
Assim que entrou de férias, após ganhar seu primeiro prêmio Esso com
a reportagem “Feirão do Pó”, da Globo — o primeiro prêmio Esso
concedido na categoria TV — em que denunciava a venda de drogas em vários
pontos do Rio, Tim Lopes tinha uma preocupação: descansar em algum
lugar distante da agitação e da violência do Rio. Procurou amigos e
pediu indicação de pousadas no interior.
—- Quanto mais no meio do mato, melhor -- disse ele.
Com os amigos, ele já mostrava cansaço. Chegou a comentar que estava
“enxugando gelo”, porque o tráfico vinha tomando proporções
alarmantes na cidade, apesar das denúncias que a imprensa, inclusive
ele, vinha fazendo. Lamentava a falta de ação das autoridades e
reclamava a ausência de medidas sociais e de programas educacionais que
ajudassem a solucionar o problema das drogas. Demonstrava uma preocupação
muito grande com o envolvimento das crianças no tráfico. Mas em nenhum
momento mencionou medo dos traficantes por causa do seu trabalho, embora
tenha revelado a intenção de preparar reportagens mais leves, sobre
meio ambiente. Não conseguiu.
Dimmi Amora
Fonte: Jornal O Globo
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