"Vem, vamos
embora que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer"
Geraldo Vandré
Não, Leonardo.
Infelizmente não tenho as respostas que você
indagou ao Cristo Redentor. E é com muita tristeza que devo
confessar um detalhe. O nosso Cristo de pedra é tão vulnerável
quanto nós, e não está indiferente aos caos que amendronta os
cariocas. Ele também foi rendido pela violência, assim como a população.
Está de braços abertos, porque acima de tudo, aceita seus filhos.
Sejam eles traficantes ou simples pessoas que não sabem mais o que é
cidadania. Está de braços abertos para não levar a mão aos olhos e
chorar. Está de braços abertos como se tivesse querendo contagiar
cada um com um pouco de esperança.
Mas, é inútil dizer
isso ao seu amigo Bruno, filho de Tim Lopes. E também é inútil
falar de Tim Lopes, depois de tudo que já disseram. Já colocaram
todas as azeitonas na empada e todas as cerejas no sundae. É como
falar de namorados depois de Drummond ter escrito "Ter ou não
ter namorado?". É como tentar superar as Quatro Estações de
Vivaldi. É como regravar alguma canção definitiva. Nada acrescenta.
Mas, preciso falar da profissão de Tim.
Não o conhecia antes da sua morte. E isso não é demérito para uma
estudante de jornalismo. Os professores nunca falaram dele. Ele não
aparecia. Não precisava ter boa dicção para ser apresentador de
telejornal. Não precisava se preocupar em passar o pó de arroz para
tirar o brilho e estar bem diante das câmeras. O seu terno não
precisava ter um corte impecável para ele dar uma notícia, fosse ela
boa ou não. Precisava ser ele mesmo, repórter.
Na faculdade não aprendemos a ser repórteres. Ou somos ou não
somos. Na universidade simplesmente polimos as características que
esse tipo de jornalista deve ter. E Lopes era repórter. Como tantos
outros já foram e são. Mas, há um diferencial que poucos têm:
sabia da importância do seu papel social.
Era um flâneur, que conhecia muito bem a alma das ruas, como João do
Rio. Sabia ouvir o grito silencioso do morro, das vielas e dos becos.
Seu coração era um estetoscópio. E era com ele que sentia as
necessidades de uma cidade tão exuberante, mas tão carente. Ele
vivia sobre uma pedra, em cima de um muro que fazia a divisa entre o
asfalto e a favela. O lícito e o ilícito. O moral e o amoral. O
justo e o injusto. O poder oficial e o parelo. Mas, alguém de um lado
desse terreno, retirou a pedra de Tim, e ele se foi.
Era um Euclides da Cunha, que de peito aberto e como cidadão comum,
foi sentir na pele a Guerra de Canudos. Só que aqui, a guerra era
outra. Como Cunha, que registou a diferença entre a dureza do sertão
e as regalias do litoral, Tim tentava com sua câmera escondida
mostrar aos brasileiros o que eles não viam. Por falta de opção,
por não quererem ou simplesmente por não terem olhos. Tim e Euclides
registraram os conflitos sociais de sua época. Um voltou do conflito,
o outro não.
Era quase um Manuel Bandeira, farto do lirismo comedido. Poderíamos
parafrasear sua "Poética" e ela cairia redondo aos
colequinhas de profissão que trabalham enclausurados numa redação
gelada e infestada de ácaros. Ficaria assim: "Estou farto do
jornalismo comedido / Do jornalismo bem comportado / Do jornalismo
funcionário público com livro de ponto expediente, protocolo e
manifestações de apreço ao Sr. Diretor / Estou farto do lirismo que
pára e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo
/ Não quero mais saber do jornalismo que não é libertação".
Não, o Tim não é o meu mais novo ídolo. Nem mais um herói que
morreu. Nem um modelo a ser seguido. Talvez se torne um mito de resistência
à censura velada que de vez em quando dá sinal de vida. Como deu.
Ele é a caracterização de coragem que todos nós, virgens
estudantes de jornalismo teremos que herdar. Isso se quisermos mudar,
com passos de formiga, alguma coisa. É, continuar acreditando como
nossos pais, que as mesmas flores de 68 vencerão os canhões...
Colaboração: Estudante de
jornalismo
e autora Viviane Reis