Apenas uma foto difere a primeira página do "Jornal do
Brasil" dos demais jornais do País de terça-feira, dia 4 de
junho de 2002. Três velhos latões alaranjados repousam, com suas
bocas sujas de fogo, sobre um barranco no meio do mato. As suspeitas
que recaem sobre essas corriqueiras peças de lixo urbano, porém, são
alarmantes: um desses latões pode ter sido o depósito dos restos
humanos do repórter Tim Lopes, da rede Globo.
O jornalista de 50 anos está desaparecido desde o último domingo,
quando colhia imagens para uma reportagem sobre o suposto aliciamento
de menores num baile funk promovido pelo tráfico na Favela Vila
Cruzeiro, no Rio de Janeiro. Lopes atendia ao pedido da população do
bairro vizinho, a Penha, para flagrar o desatino que punha em risco a
moral de suas famílias, se comprometendo a ajuda-lo com informações
sobre o baile que, segundo relatos, acontecia com sessões de sexo
explícito com menores de idade e consumo de drogas. Tim voltava ao
terreno que lhe conferiu o Prêmio Esso do ano passado - o primeiro no
jornalismo televisivo --, ao lado da jornalista Cristina Magalhães,
para filmar com uma micro-câmera a feira livre de drogas que costuma
acontecer em sua rua principal.
Tempo também suficiente para que Tim seja encontrado e seu trágico
destino, que na terça-feira foi traçado de forma tão nefasta, não
se confirme. E é justamente essa apreensão que toma de assalto os
profissionais de jornalismo e o próprio jornalismo no país. Porque,
caso se confirme o assassinato de Tim pelo tráfico local, a imprensa
estará acossada e sujeita, como afirma o artigo de Nelson Hoineff no
próprio "Jornal do Brasil", a um novo tipo de censura que
poderá se instalar sem precedentes sobre sua historicamente sofrida
liberdade, tendo como promotor o crime organizado.
Hoineff comenta os avanços conquistados pelo telejornalismo
investigativo com repórteres como Tim Lopes, trazendo para a
sociedade a luz do problema detectado com a "límpida"
imagem do fato, captado tal como ele é, o que jamais conseguiu o
jornalismo analítico. A virada desse novo século foi particularmente
tocada por essas imagens que vêm revelando ao mundo e ao Brasil o
realismo surpreendente dos fatos, como os atentados de 11 de setembro
(mesmo que captado sob surpresa), a verdadeira destruição da cidade
de Jenin pelo exército de Israel (mesmo que captada tardiamente), a
face cruel do médico pedófilo em pleno aliciamento de menores (mesmo
que captado pelo próprio acusado), a frieza dos políticos corruptos
em negociata nas dependências da própria prefeitura numa cidade do
interior fluminense (em mais um trunfo da emissora carioca).
A nova censura - legitimada pelos altos índices de violência nas
cidades e pelo constante desafio do crime organizado frente às
instituições - poderá causar, segundo Hoineff, um efeito retroativo
nessa inovadora maneira de se fazer jornalismo. E estará deixando a
sociedade ainda mais desarmada frente aos descalabros que lhe são
impostos com a fúria que só quem presenciou um ato violento pode
saber - e jamais esquecer - como de fato aconteceu.
Mesmo com o difícil esquecimento, o registro da imagem é uma
fundamental arma de denúncia. Afinal, de que resultaria a constante
luta para que não seja esquecido o Holocausto, se não houvesse
aquelas imagens que nos tomam o peito de tristeza e de lamento ao
revelar o genocídio de suas vítimas? (Mesmo que essas imagens, é
sempre bom lembrar, jamais consigam reparar tamanha crueldade).
Márcio Dal Rio Pinheiro