| |
Tim Lopes - Uma discussão sobre a violência.
"É um desafio. Relatar a violência
a partir dos próprios personagens e por eles mesmos. Mostrar a dor, o
sentimento de vingança, a resignação, o perdão.
Falar do sentimento humano, da emoção. Colocar a vítima e seu algoz
cara a cara num momento de catarse, sofrimento e alívio. Propiciar a
sua "hora da verdade". Descobri, nesse tempo todo, pessoas
machucadas em meio à saudade e feridas na alma. E descobri também
pessoas atormentadas pelo remorso, convertidas pela religião. Visitei,
como nunca, as penitenciárias, garimpando almas condenadas e
arrependidas, almas condenadas e bandidas.
Não foi um trabalho isolado. A partir das pastorais carcerárias da
CNBB, grupos evangélicos e voluntários anônimos, tive acesso a histórias
dessa violência de todo dia. Histórias com rosto, nome e endereço.
Histórias de pessoas dispostas a descobrir o porquê do roubo,do tiro,
do assassinato. Histórias de quem quer falar porque roubou, agrediu e
matou.
Normalmente, tenho uma das partes como ponto de partida. Acertar com o
outro lado, para que fique frente a frente é uma outra questão.
Algumas vezes, a receptividade é imediata. Era a oportunidade esperada
por meses ou anos de ter uma explicação, olhar no olho, sentir o
arrepedimento do agressor e perdoar, às vezes. Quanto ao algoz, a
chance de falar do seu remorso, do seu momento de loucura, ou de sua
frieza assassina. Em ambos os casos, sem dúvida, uma grande sensação
de alívio, de se falar tudo, tentando explicar o que nâo será
explicado, ou se calar, deixando que a emoção fale pelos dois.
Um momento de acarear pessoas com culpas, sofrimentos, resignação...
Pessoas em busca de paz, querendo recuperar o fio da meada da sua própria
vida. Como o empresário Massa Ota, que teve o filho seqüestrado e
assassinado pelos policiais que faziam a sua segurança. Ele perdoou
"em nome do filho". Hoje, o empresário faz palestras em
escolas, pregando a não- violência. Ou o comerciante da Baixada
Fluminense que preferiu "caçar" o assassino do seu irmão
durante um ano e entregá-lo à polícia. "Eu tive todas as chances
de matá-lo. Mas ia me tornar um assassino como ele. Se depender de mim,
ele nunca mais sai da cadeia". Ele não perdoou.
A matéria que vocês viram nesse domingo (e que vocês podem rever aqui
no site), foi a primeira da série a ser produzida. Encontros de mediação
entre vítimas e criminosos já existiam nos Estados Unidos, promovidos
por governos de alguns estados e organizações não-governamentais. Daí
surgiu a idéia de produzir um programa de TV que registrasse esses
encontros, o que foi sucesso por lá. Resolvemos fazer um quadro nos
mesmos moldes.
A primeira pessoa que procurei foi Vera Alves, da Pastoral Penal da
CNBB, seção Rio de Janeiro. Ela lidera um grupo de voluntários que
visita as penitenciárias levando palavras de conforto. Ela só não
conseguiu conversar com o assassino de seu filho, que até hoje está
foragido. Ao comentar com ela sobre a proposta do quadro, lembrou logo
de um caso. Seu Alípio, um motorista de táxi, a procurava uma vez por
semana. Ele queria encontrar os rapazes que quase o mataram e o deixaram
com a metade do rosto afundada. E com a vida arruinada. Seu Alípio
queria saber o porquê de tanta crueldade e perdoá-los. Conseguimos
promover o encontro, e para disfarçar o rosto deformado, o motorista
usou um boné. Ainda assim, teve gente que achou a imagem forte demais.
Aqui mesmo na redação. É um bom sinal, a violência ainda choca. Mas
a imagem forte, na minha opinião, é o momento em que o criminoso, com
as mãos algemadas, envolve seu Alípio num abraço emocionante. É difícil
perdoar. No fundo, são duas vítimas. São duas pessoas que sofreram a
dor da perda e do arrependimento. Pessoas que tiveram a coragem de se
despir do todo o ódio. Perdoando ou não.
Tim Lopes
Produtor e repórter do quadro "Hora da Verdade"
Fechar |
|