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A semente que Tim Lopes plantou
O termo jornalismo investigativo causa um certo
incômodo. Aprendemos que todo jornalismo tem de ser investigativo, ou
seja, bem-apurado e crítico.
Mas a combinação, consagrada nos Estados Unidos e em vários países de
língua espanhola e que começa a ser adotada nas escolas de Comunicação
brasileiras, ajuda a distinguir as reportagens de mais fôlego, que
exigem maiores investimentos na apuração, do noticiário rotineiro, que
também requer apuro técnico, mas que é mais simples.
A investigação bem-feita pede, quase sempre, tempo e paciência para
pesquisas, entrevistas em on e em off com fontes diversificadas e com
especialistas, observação direta, checagem e rechecagem. E exige,
sobretudo, uma busca obsessiva de documentação e provas.
Embora possa e deva ser aplicada em todos os assuntos que interessam aos
leitores, a reportagem investigativa vem mostrando maior força,
utilidade e repercussão quando se dedica à fiscalização do uso dos
recursos públicos e questiona a eficácia das políticas de governo.
Nós temos praticado este jornalismo? Acho que sim, mas não na freqüência
que nossas mazelas exigem e nem com a qualidade que a sociedade e nós
mesmos nos cobramos.
Uma análise do jornalismo que produzimos a partir do início dos anos 80,
quando se inicia a transição para a democracia, vai nos mostrar que hoje
apuramos melhor, somos mais precisos, e que ampliamos nosso campo de
fiscalização, estendendo a cobertura crítica a áreas antes reservadas
apenas ao entretenimento, como o futebol e a cultura.
Mas ainda continuamos reféns dos relatórios malfeitos e de informações
manipuladas produzidos nas repartições policiais, nos ministérios
públicos e nos gabinetes políticos.
Os jornais têm dificuldades para manter os investimentos em equipes
experientes e que precisam de tempo e recursos para produzir trabalhos
de qualidade e diferenciados. Ao contrário dos Estados Unidos, não
conseguimos ainda criar uma produção independente que atenda tanto ao
mercado tradicional (a grande imprensa, emissoras de TV e editoras de
revistas) como ajude a criar um mercado novo e alternativo (com a
publicação de livros e na internet, por exemplo).
Há um outro problema sério no Brasil: a dificuldade de acesso a
informações públicas. Os dados são guardados pelas autoridades como se
fossem de uso privado e são distorcidos com muita facilidade. Embora a
Constituição de 1988 garanta o direito de acesso, ainda predomina em
todas as instâncias de poderes da República o conceito autoritário do
uso reservado das informações públicas.
Rede congrega mais de 200
A formação de uma associação de jornalistas investigativos nasce da
constatação destes problemas. Mas nasce, principalmente, da constatação
das nossas carências profissionais.
Temos de melhorar a qualidade do nosso trabalho jornalístico,
independentemente de todos os obstáculos políticos, culturais,
econômicos e empresariais que são colocados diante de nós.
Por isso, imaginamos uma entidade formada e mantida por jornalistas que
fazem, querem fazer ou apóiam o jornalismo sério, documentado,
revelador. Um entidade voltada para a troca de informações e
experiências, com ênfase grande no trabalho de formação e reciclagem
profissional. Que ajude a difundir e a utilizar os recursos e
ferramentas que as novas tecnologias acrescentaram. Que contribua para o
nosso crescimento profissional e intelectual. E que ajude a integrar
jornalistas que hoje trabalham solitários e ameaçados longe das capitais
ou fora da grande imprensa.
Esta entidade está lançada, depois de dois seminários organizados no Rio
(31/8) e em São Paulo (7/12) pelo Knight Center for Journalism in the
Americas com a ajuda do Sindicato dos Jornalistas do Rio e da Escola de
Comunicação e Artes da USP, e é fácil de ser contatada em
<http://planeta.terra.com.br/noticias/investigativo/index.htm>.
Ela nasce da troca de idéias de uma rede que começou com 45 jornalistas
e já congrega mais de 200. Nasce com o apoio dos departamentos de
jornalismo de várias universidades, como USP, UFSC e UFBA. E nasce da
semente que Tim Lopes plantou em cada um de nós que com ele convivemos:
o compromisso com um jornalismo sem preconceitos, corajoso, bem-feito e
que pode e deve ser aperfeiçoado.
Fonte: Texto de Marcelo Beraba para o Observatório da Imprensa em
dezembro de 2002
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